Maior complexo portuário da América Latina atrai o agronegócio goiano após investimento de R$ 350 milhões em terminal de grãos e foco em soluções customizadas para o milho e a soja

A logística brasileira passa por reconfiguração silenciosa, mas de proporções gigantescas, destaca reportagem do site da TV Anhanguera, afiliada da TV Globo no estado de Goiás. A 1.500 quilômetros das lavouras de Rio Verde e Jataí, em Goiás, o Porto do Açu, em São João da Barra, município do Norte do estado do Rio de Janeiro, consolidou-se com o curioso o título de “Porto de Goiás”. E não é apenas figurativo, porque hoje, 25% de toda a carga movimentada no Terminal Multicargas, o T-Mult do complexo portuário sanjoanense, tem origem ou destino no estado goiano.

Inaugurado em 2014 e fruto de um projeto de R$ 22 bilhões em investimentos desde sua concepção, o Açu já é o segundo maior porto do país em movimentação de cargas, se comparado aos demais portos organizados. No último ano, foram 89 milhões de toneladas movimentadas. E o foco não está apenas na vocação para o petróleo, energia e cargas do setor de Óleo e Gás: está também no agronegócio, que é o motor da nova fase de expansão.

“Caminhão cheio”: fertilizantes e grãos*
Não foi por acaso a ascensão do Açu como rota para Goiás. A estratégia comercial foi desenhada para resolver um dos maiores problemas do custo do Brasil: o frete. Inicialmente, o porto focou na importação de fertilizantes para servir como alternativa aos gargalos históricos de portos como o de Vitória (ES), onde as filas de navios elevam os custos de demurrage, as chamadas sobrestadias, ou taxas por atraso.

Viabilizando o transporte rodoviário, o porto buscou na exportação de grãos a contrapartida necessária. O grão é o produto que melhor se integra ao fertilizante para otimizar custos logísticos: o caminhão desce ao litoral carregado de soja ou milho, retornando a Goiás abastecido com fertilizantes. O ciclo de frete de retorno é o que torna a rota competitiva, mesmo diante da distância rodoviária.

Eficiência e o fim das filas

Ao passo em que os portos de Santos e Paranaguá frequentemente operam no limite da capacidade, o Porto do Açu oferece atendimento customizado e agendado. No cais, a operação é uma demonstração de força e tecnologia. Navios da classe Panamax, com capacidade para até 60 mil toneladas (lote padrão para soja), ou embarcações ainda maiores, de até 80 mil toneladas, são carregados em tempo recorde. Guindastes de alta performance despejam 18 toneladas de grãos a cada movimento.

Para efeito de exemplo, recentemente, um embarque de 11 mil toneladas de milho goiano com destino a Liverpool, na Inglaterra, foi concluído em menos de três dias. A empreitada envolveu logística coordenada de 300 carretas para trazer toda a carga, sendo que o produto desembarca em poucas semanas no destino.

“GMO-Free”: diferencial do milho não transgênico

Um dos grandes destaques da operação no Porto do Açu é o milho não transgênico (GMO-Free), destinado ao consumo humano na Europa para a produção de cereais e alimentos especializados. Por ser um produto que exige pureza total, ele não pode ter contato com grãos geneticamente modificados.

O porto sanjoanense se tornou o preferencial para esse nicho. Como o transporte é 100% rodoviário a partir de Goiás, o risco de contaminação – comum em modais ferroviários que misturam diferentes cargas – é eliminado. O porto mantém protocolos rigorosos de segregação e limpeza, garantindo que o produtor goiano receba as bonificações de mercado por entregar um produto certificado e seguro.

Olhar no futuro

O salto do Porto do Açu é ambicioso para os próximos anos. Em 2025, o complexo movimentou cerca de 750 mil toneladas de grãos. Para 2026, a meta é incrementar esse volume na casa dos dois dígitos percentuais. Para consolidar essa posição de liderança, o porto projeta um ciclo de crescimento robusto sustentado por investimentos estratégicos em infraestrutura. O plano de expansão prevê aporte de R$ 350 milhões na construção de um terminal exclusivo para grãos, com previsão de ser concluído em 2028.

Para o primeiro ano de operação, a expectativa é que o terminal movimente 1,8 milhão de toneladas, elevando significativamente a capacidade de escoamento. Somado a isso, o complexo investe em uma planta misturadora de fertilizantes, iniciativa desenhada para fortalecer o fornecimento de insumos essenciais às lavouras do Centro-Oeste e otimizar a logística de retorno dos caminhões.

A assinatura do Protocolo de Intenções com o Governo de Goiás que selou a parceria foi em 2024. O acordo prevê expansão da movimentação de soja, milho, farelo, além de minerais como o concentrado de cobre e o carvão mineral. É uma integração que encurta distâncias estratégicas e posiciona Goiás no centro das rotas globais de exportação, utilizando o Porto do Açu como porta de entrada e saída moderna, eficiente e, acima de tudo, livre de filas.

Em um horizonte de longo prazo, a grande aposta para a consolidação do Açu no setor de grãos é o projeto da ferrovia EF-118. A conexão ferroviária entre Vitória-ES e o Rio de Janeiro está em fase avançada de estudos e promete revolucionar o transporte de carga na região.

Com a entrada em operação desse modal, prevista para a próxima década, o potencial de transporte de grãos do porto pode saltar para até 9 milhões de toneladas anuais, transformando o complexo em um dos principais hubs logísticos do agronegócio global.

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